A água é uma substância
fundamental para a vida devido às suas características físico-químicas. Graças à
polaridade de suas moléculas, ela é capaz de dar estabilidade para diversas substâncias
orgânicas, estabelecendo pontes de hidrogênio com as mesmas. Além disso, por
ser um fluido, é também um meio que permite mobilidade para essas moléculas,
sem a qual, não haveria metabolismo. Portanto, a água é essencial para a vida
como a conhecemos, mas alguns seres vivos são capazes de viver sem água por longos
períodos. Esses seres são capazes de entrar num estado que chamamos de
anidrobiose.
Anidrobiose é um tipo de criptobiose, estado
reversível em que o metabolismo é interrompido devido a influências externas,
causada por desidratação e revertida com a reidratação. Diversos organismos são
capazes de entrar nesse estado para sobreviver a épocas de privação de água, como
nematoides, sementes de plantas, tardígrados e, o que será mais detalhado nesse
texto, Polypedilum vanderplanki.
P.
vanderplanki é uma espécie de
quironomídeo, que são insetos da ordem Díptera e parentes próximos dos
pernilongos. Suas larvas são o maior animal anidrobiótico conhecido e, apesar
de crescerem em ambientes aquáticos (da mesma forma que as larvas de
pernilongos), são capazes de suportar até 17 anos sem água! O funcionamento exato
da anidrobiose ainda não é claro para a ciência e, provavelmente, ele varia
bastante entre cada espécie. Pesquisas recentes com P. vanderplanki, indicam que, no caso desses insetos, um
fator essencial é a produção de trealose durante esse estado.
![]() |
| Ilustração de duas moléculas de glicose e uma de trealose. Imagem adaptada com original disponível em: <http://bluetb.drpi.ch/pathway/myc/reactions.html> |
A trealose é um dissacarídeo
formado por duas moléculas de glicose, formando uma molécula bastante estável e
com alta capacidade de formar pontes de hidrogênio, assim como a água. Essa
característica permite que a trealose substitua a água para manter as moléculas
estáveis dentro das células. Além disso, a trealose é também capaz de formar
uma estrutura mais rígida dentro da célula (um tipo de vidro biológico) e a
rigidez dessa estrutura protege ainda mais a célula contra danos decorrentes da
falta de água.
Portanto, a trealose
substitui a água, protegendo as estruturas das células, mas sem dar mobilidade
para as mesmas como a água daria. Logo, o animal não morre, mas o metabolismo
fica interrompido. Contudo, ao longo do tempo alguns danos vão, inevitavelmente,
ocorrendo e, se a larva não for reidratada, ela acaba eventualmente morrendo.
Além do tempo, as larvas ainda podem morrer por predação, parasitismo ou até se
expostas a temperaturas acima de 65°C,
que danificaria a estrutura do vidro.
Logo, essas larvas não podem viver sem água de maneira
literal, mas chegam perto disso e mostram que, talvez, a vida sem água seja
possível.
Referências:
SAKURAI, M. et al. Vitrification is essential for
anhydrobiosis in an African chironomid, Polypedilum
vanderplanki. PNAS, v. 105, n.
13, p. 5093-5098, abr. 2008.
MORANO, K. Anhydrobiosis:
Drying Out with Sugar. Cell, v.
24, n. 23, p. R1121-R1123, dez. 2014.



Nenhum comentário:
Postar um comentário